27 de fevereiro de 2017

Resenha | Revista Trasgo - Edição 4

Título: Revista Trasgo – Edição 4
Autores: Ademir Pascale, Érica Bombardi, Fred Oliveira, Gerson Lodi-Ribeiro, Jessica Borges, Mary C. Müller, Rodrigo van Kampen (organizador), Edmar Nunes de Almeida (ilustrador)
Ano de publicação: 2014
Editora: Independente
Número de páginas: 100
Sinopse (Skoob): A quarta edição da Trasgo de Ficção Científica e Fantasia traz contos de autores conhecidos e estreantes. Esta edição abre com “Rendição do Serviço de Guarda”, uma noveleta do veterano da FC brasileira Gerson Lodi-Ribeiro, na qual os humanos são a principal esperança em uma guerra que já dura milênios. Também publica um conto de Érica Bombardi, “Vivo. Morto. X”, um conto sobre escolhas e influências, com um toque gótico e contemporâneo. “Isaac”, de Ademir Pascale, traz um cenário pós-apocalíptico onde humanos se tornaram piores que animais. Em seguida, um delicioso conto de Mary C. Muller, “Estive assombrando seus sonhos”, sobre um jovem medium em treinamento. Em “Arca dos Sonhos”, de Fred Oliveira, o leitor se coloca na mente do capitão de uma grande nave vagando por milênios rumo ao desconhecido. Para fechar esta edição, um texto leve de Jessica Borges, “No Labirinto”, influenciado pelo filme homônimo com David Bowie, sob uma abordagem única e singela.

A quarta edição da Trasgo traz 6 contos de fantasia e ficção científica. Infelizmente, acabei não gostando muito de alguns deles, e só bastante apenas de dois. Como sempre, avaliei cada um deles separadamente:

Rendição do serviço de guarda (Gerson Lodi-Ribeiro)

O conto traz alguns temas interessantes, como a dominação do espaço, a interação de diferentes espécies do sistema solar e a imortalidade. São temas interessantes e que dão margem a enredos bem interessantes. No entanto, este conto não me agradou, e o principal motivo foi a narrativa.

Grande parte do conto se destina a explicar (em forma de relatos) como estourou a chamada Guerra Natural, que acontece há milênios e envolve sete espécies Carnívoras (como são chamadas) contra as demais espécies humanóides que habitam o sistema solar. Há ainda uma parte dedicada ao background de um personagem, que afinal não se mostrou tão importante. Assim, durante a maior parte do conto eu me senti como se estivesse lendo um livro de fatos históricos. E, mesmo nos momentos em que o enredo propriamente dito se desenrolava, eu não conseguia entrar na cena: as coisas são contadas, em vez de mostradas.

Além disso, os personagens têm pouca caracterização: em nenhum momento mostram como é sua personalidade (mesmo no caso daquele que teve seu background apresentado: sabemos sua história, mas não o conhecemos de verdade, não sabemos como ele reagiu a essa história). Isso acabou me impedindo de me conectar com os personagens, o que diminuiu ainda mais a minha empolgação com a leitura. Ademais, a história caiu em um clichê que eu não gosto: a maioria das espécies apresentadas parece ser monocultural, e ainda bem parecidas em pensamento entre si.

★ ★ ☆ ☆ ☆

Outros livros do autor:





Vivo. Morto. X. (Érica Bombardi)

O conto é curto e tem um enredo bem simples, então é um pouco difícil detalhar a premissa sem entregar spoilers. Em resumo, é sobre um jovem que sofreu um acidente de moto, acabou com um problema no joelho e, apesar da terapia, é bastante frustrado. Ele anda de skate para tentar arejar a mente, e em um desses passeios, topou com uma garota sentada em um banco da praça. Obviamente, não é um encontro comum, e a trama se desenvolve a partir daí.

A escrita é em primeira pessoa e me arrebatou: a voz do personagem foi muito bem utilizada. Os diálogos também me agradaram. O enredo me prendeu aos poucos, fazendo meu interesse pelo que podia ser uma cena simples aumentar gradativamente. Foi para um caminho que eu não esperava, e o final me agradou bastante.

★ ★ ★ ★ ★

Outros livros da autora:





Isaac (Ademir Pascale)

O conto é ambientado no nordeste brasileiro futurista, em que a humanidade colapsou, e os poucos remanescentes se organizaram em uma sociedade selvagem e canibal, que idolatra um deus com cabeça de bode. Isaac é, até onde se sabe, o único que manteve a lucidez, o mais próximo que se pode encontrar nesse mundo de algo que entendemos como humano.

Infelizmente, acabei não gostando da execução, tanto da parte narrativa quando do enredo em si. A narrativa conta demais, e por isso acabou não me prendendo; não consegui me sentir dentro da história. O enredo, por sua vez, tem por trás uma ideia interessante, por se tratar de conflitos religiosos, mas no fim acabei não gostando da forma como foi executado. O clímax foi fraco: em nenhum momento consegui me convencer de que as coisas estavam difíceis para o protagonista, ou que havia muito a perder; ou seja: foi uma resolução fácil, ainda que no começo a narrativa afirmasse que a missão era difícil e requeria muita preparação.

★ ☆ ☆ ☆ ☆

Outros livros do autor:





Estive assombrando seus sonhos (Mary C. Müller)

O conto começa instigante, contando a história de Felipe, um garoto que vê e fala com fantasmas (e por isso incompreendido pelos pais e pelos colegas na escola). Certo dia, ele se depara com um fantasma diferente de todos os outros, uma mulher que aparece suja e desgrenhada e fica reencenando sua morte por afogamento. Sem saber como ajudá-la, Felipe procura Sonny, seu amigo vampiro, um dos poucos que o compreende e o ensina a lidar com os fantasmas.

Na maior parte do tempo, a narrativa me agradou. Ela conta um pouco aqui e ali, mas, no geral, conseguiu me prender e me manter interessada na história. Mas o enredo, que tinha tudo para render uma boa história de fantasma, daquelas cheias de mistério, acabou me decepcionando. No clímax, acabou faltando um pouco de conflito, algo que se interpusesse entre os personagens e seus objetivos. Quanto ao mistério, achei que eles o desvendaram com facilidade demais, ao mesmo tempo em que senti falta de aprofundamento na história da fantasma. O que é uma pena, pois o universo em que se passa o conto parece ser bem interessante, com menções não somente a vampiros, fantasmas e lobisomens, mas também a criaturas do folclore brasileiro.

★ ★ ✭ ☆ ☆

Outros livros da autora:





Arca dos Sonhos (Fred Oliveira)

O conto apresenta o leitor à Arca, a maior nave já feita pelos seres humanos, que tem como objetivo alcançar o Fluxo Escuro, descoberto pelos cientistas há algum tempo, embora ninguém pareça ter certeza de que se trata. Em meio a essa viagem de milhares de anos, somos apresentados ao Capitão que, sentado em sua Poltrona (que parece capaz de alongar sua vida), deve manter a nave no caminho certo e defendê-la de quaisquer ameaças.

Gostei bastante da ideia por trás do conto, mas a narrativa (ela, mais uma vez) me decepcionou. Não que o conto seja mal escrito: algumas passagens são belas e bem construídas. O problema foi que ela não conseguiu me prender, eu não consegui ser arrebatada pela história. Durante todo o tempo senti que estava observando de longe, porque a narrativa não me convidou a mergulhar nos medos e anseios do personagem. Talvez essa tenha sido a intenção do autor, já que o Capitão é um personagem anônimo, apenas um entre as inúmeras pessoas que o antecederam e o sucederão no comando da Arca, uma única pessoa em comparação a uma missão monumental. Mas, infelizmente, não funcionou comigo.

★ ★ ★ ☆ ☆



No Labirinto (Jessica Borges)

Sarah é uma pessoa comum, que vive uma rotina rígida e até monótona. Só há uma peculiaridade em sua vida: todos os dias à meia-noite, há seis meses, ela é levada a um mundo paralelo, habitado por criaturas imortais, que todas as noites festejam e banqueteiam. Sarah também tem a oportunidade de viver nesse mundo e ser imortal — mas, para isso, precisa abandonar sua própria vida: seus pais, sua carreira, o noivo e o futuro que poderia ter com ele. É isso que Rodriel, que é rei nesse mundo, deseja que ela faça — e está disposto a muita coisa para convencê-la.

Esse conto, felizmente, me enredou desde o início. A narrativa é leve, sem exagerar nas descrições, e conseguiu fazer com que eu me sentisse dentro da história. O enredo também me agradou bastante, especialmente pelo tema, que trata das expectativas para o futuro de forma bastante interessante. Gostei da resolução: não foi algo totalmente inesperado, mas foi bastante crível dentro das habilidades de uma pessoa comum que pode viajar para um universo fantástico. E, apesar de o conto ser focado em Sarah, conseguiu dar certo desenvolvimento a uma das personagens secundárias.

★ ★ ★ ★ ★

Conheça o outro conto da autora:





Como você viu, infelizmente não gostei de dois contos e gostei de outros dois com algumas ressalvas. Mas Vivo. Morto. X. e No Labirinto são ótimos e fizeram a leitura valer muito a pena.

E vale destacar que Jessica Borges, autora de O Labirinto, também escreveu o conto Ao lado do rio, que está disponível na antologia Trópicos Fantásticos.

Confira também:
A edição impressa da Trasgo está para sair! O livro (de mais de 300 páginas!) terá os contos das primeiras quatro edições, além de três contos inéditos, escritos pelos editores da revista. Apoie a publicação da Trasgo - Ano 1 no Catarse! Com apenas R$35, você já leva o livro físico, com frete incluso.


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