11 de novembro de 2016

Um mês de microcontos!

Durante o mês de outubro aconteceu o I Prêmio Escambau de Microcontos. O desafio consistia em escrever uma história de até 300 caracteres que usasse como tema a palavra sorteada no dia. Eu entrei no desafio sem pretensões, para treinar a concisão e me divertir — e eu me diverti bastante! Agora que o desafio acabou, decidi reunir todos esses contos em um post só (e talvez eu os separe por gênero e faça e-books no Wattpad, que serão atualizados conforme eu tenha mais ideias para microcontos).


Confira abaixo os microcontos:



02/10/2016


Piloto


Manira sentiu o vento forte no rosto quando desceu o vidro e mirou o carro que voava logo à frente. A mão tremia, mas o tiro foi certeiro: a explosão iluminou a noite. Um sorriso veio ao rosto: a encomenda não seria entregue. Mas a garganta estava apertada: o outro piloto era seu irmão.



03/10/2016


Sapato


Eles se beijavam, então manteve o olhar no sapato da moça. O ônibus não tardou a chegar. Quando olhou pela janela, o rapaz estava inconsciente e a moça a encarava, de olhos faiscantes. No dia seguinte, viu o mesmo par exibido numa vitrine. Um arrepio lhe desceu pela espinha. Comprou-o.



04/10/2016


Pestana


Foi só quando estavam na penumbra que Linara reparou que as pestanas de Nialee brilhavam em um leve tom de azul. Nialee percebeu seu olhar.
— Sim. Teremos que fugir.
Mas não naquela noite, eram as palavras não ditas. Então se aconchegaram e curtiram o momento: Linara, Nialee e a caixa de chocolates.



05/10/2016


Migalha


Ao chegar em casa, encontrou apenas uma mísera migalha onde antes estivera o último pedaço de bolo.
— Quem comeu o meu bolo?! — esbravejou para o apartamento vazio.
Aquilo era traição. Ia encontrar o desgraçado, e ele ia se arrepender.



06/10/2016


Azar


O azar a perseguia. Encurralou Niazor, mas a arma decidiu falhar. Ela consertou o problema em instantes, mas foi o suficiente. Ele apertou um botão em seu cinto, e uma nuvem azul se expandiu pelo beco. Quando se dissipou, ele obviamente tinha desaparecido com o pacote, e Liana não acertara um tiro.



07/10/2016


Fralda


Olhavam a criança de pele azulada através do vidro.
— Será que é como a gente? Tem que trocar fralda, dar banho e tudo o mais?
A outra deu de ombros.
— Sei lá. E nem pretendo descobrir.
A primeira olhou para a criança mais uma vez.
— Melhor a gente dar no pé, antes que sobre para nós.



08/10/2016


Dança no convento


Nira estranhou que um convento precisasse de alguém como ela — eles deviam saber como lidar com almas atormentadas, certo? Porém, quando viu todos aqueles fantasmas, os tecidos etéreos de suas roupas flutuando com sua dança eterna, entendeu que a situação estava além de qualquer ajuda.


Escalada divina


Começou em um convento, mas logo fundou sua própria religião. Meses mais tarde já recebia vivas e oferendas quando aparecia na janela de sua torre e alegrava-se a cada vez que alguém proferia seu nome em uma reza. Porém, temia: se a fome aumentasse, não tinha como ser mais do que uma deusa.



09/10/2016


Fuga


Em sua fuga desenfreada, Nya deixou cair a lanterna mágica de Navin. Viu a luz azulada deslizar pelas rochas úmidas da caverna, entre as sombras projetadas pelos leões gigantes. Correu como se não houvesse amanhã. Mais tarde encontraria uma desculpa para não ter que pagar a lanterna a Navin.



10/10/2016


Passado


Voltou ao passado desejando fugir da correria do dia-a-dia. Não tinha lhe passado pela cabeça que teria de voltar a viver sem micro-ondas e wi-fi, então retornou ao presente. Talvez conseguisse fugir da correria com o dinheiro que receberia pela construção da primeira máquina do tempo do mundo.



11/10/2016


Assalto a banco


A explosão derrubou a porta do cofre e arrancou um sorriso de Irya. Seus colegas abriram caminho quando ela caminhou na direção do compartimento, de queixo erguido. Mas o sorriso de desfez quando ela se deparou com o vazio. Aquele maldito sempre estava um passo à frente.

Vingança


Era órfã. Perdeu a irmã em uma explosão no prédio onde ela trabalhava, o irmão se foi em um acidente de carro. Quando seu gato foi envenenado, soube que era uma conspiração. Fez as malas, arrumou todas as armas no porta-malas e partiu. A mente fervilhava de ideias do que fazer com o responsável.

A torre de prata


Meia-noite, e as duas estavam no telhado. A cidade silenciosa era como um espelho do céu estrelado. Até que a explosão tomou a torre prateada, abrindo-se como as pétalas alaranjadas de uma flor.
Lyre apertou a mão de Nae.
— Feliz dia dos namorados.
Nae sorriu.
— Obrigada pela flor.




12/10/2016


Sósia


A cortina esvoaçava, revelando uma silhueta desconhecida. Então um relâmpago iluminou a noite, e Nayara reconheceu a figura. A mulher ali parada era uma cópia idêntica sua, até a última sarda.
— Por favor! — Nayara suplicou. — Por favor, vá trabalhar no meu lugar amanhã!

A coroa


Lira mal se mexeu quando o rei desabou, fazendo rolar a coroa que devia ser entregue a ela. Olhou para Nain, que meio escondida atrás da cortina alternava o olhar entre o rei morto e a irmã a quem servira veneno; então, sob os vivas da multidão, chutou a coroa.
— Hoje uma nova era se inicia!

Queimado (spin-off de A Deusa de Cristal)


Jilliane puxou a cortina chamuscada e viu o passado: pessoas rindo à mesa, sua versão mais jovem correndo com a irmã por entre os móveis. Várias vidas e várias histórias que tinham sucumbido a uma única faísca.

Invisível


Lara saiu de trás da cortina e o gato bufou, os pelos eriçados.
— Que foi isso, Nick? — a outra garota exclamou, zombando do gato com um sorriso.
E, mais uma vez, Lara se perguntou por que a garota nunca a via.

Gatos e cortinas


As unhas de Lili logo a levaram ao topo da cortina. Ouviu a humana gritando lá embaixo, exigindo que descesse. Ignorou-a. Por mais que esbravejasse, a humana não conseguia esconder: na verdade, queria ser uma gata.

A inspiração para o microconto.



13/10/2016


O prazer de sua vida


A música amenizava o trânsito intenso e os bombons aplacavam a fome. Chegou tarde em casa, mas fez o ritual de sempre: banho, jantar, pijama quentinho. Então finalmente se entregou ao prazer de sua vida: a escrita.

A festa (spin-off de A Deusa de Cristal)


— Ele vai estar na festa de Nirule amanhã. Será que você consegue?
A voz de Lani era um fio frágil. A palidez se destacava na penumbra.
— Será um prazer — Myra respondeu.
No dia seguinte se equilibrava sobre o telhado, observando o homem através da clarabóia. O feitiço de morte estava preparado.



14/10/2016


Divã


— Não lembro onde estava! Não lembro nada de ontem!
Chorava e balançava a cabeça diante das fotos de sangue e mutilações.
— Qual a última coisa que você lembra, então?
— Não sei… Eu estava num divã, acho… E tinha uma mulher com um relógio.



16/10/2016


Bilhete


Gina tentou fazer o morto segurar o papel de forma que parecesse natural e o deixou sobre a mesa. Já estava longe quando parou para se livrar da arma. Inspirou o ar fresco e sorriu para a lua. Lina em breve teria uma grande surpresa. Lina revelou todos os segredos, era o que dizia o bilhete.

Niara


As mãos trêmulas alcançaram o bilhete. Relutante, desamarrotou o papel frágil. As palavras estavam marcadas com tinta vermelha: Foi Niara. A respiração ficou irregular e os dedos se fecharam em torno do cabo da faca. Era sua irmã, mas ia pagar pela cidade que destruíra e pelas almas que roubara.



17/10/2016


A raiz do problema


Lara olhou para a porta branca, mas Nia passou direto.
— Ei, a gente não tinha que resgatar a espada?
— Esquece a espada! A gente só vai acabar com isso matando o escritor.
— Que escritor?
Nia revirou os olhos.
— O que está escrevendo a nossa vida, oras!

Livro fantasma (spin-off de A Deusa de Cristal)


Ela passou a mão no espaço vazio entre dois livros.
— Gosto de imaginar que nesses espaços na verdade existe um livro fantasma — ele comentou.
— Livro fantasma?
— Um livro que nunca existiu porque o escritor morreu antes de escrever.
Ela sorriu.
— A gente deve ter perdido um monte de história boa.

Mais eterna que a eternidade


— Quero ser mais eterna que a eternidade — Loranna declarou.
— Para você eu devo parecer algum tipo de deus. Mas na verdade eu sou um escritor, e como todo escritor, aprendi que nossos personagens ganham vida e fazem sua própria história. Se você quer virar uma lenda, Loranna, é com você.

Leia mais histórias sobre Loranna aqui e aqui.

Histórico


— Nossa!
— Que foi?
— O histórico do cara no Google é bem macabro. Deve ser um psicopata maluco.
— É, deve ser. — Fez uma pausa. — Ou vai ver é escritor. Mas anda logo com isso que ele já vem vindo. E se for a sua teoria a certa, a gente não vai querer estar aqui, né?



18/10/2016


Assassinato anti-gravitacional


A Investigadora Cyara tinha a boca aberta em um “o” de choque. O corpo estava estirado no teto, e o sangue se espalhava pela superfície branca, ainda fresco. Nenhuma gota ia para o chão: era como se a gravidade estivesse invertida.
— Hoje não será um dia monótono, pelo visto. Nem um pouco.



19/10/2016


A Serpente


— Você precisa aprender a domar a serpente — era o que sua mestra dissera anos atrás.
Foi o que Naali fez. Domou as serpentes, depois reinou sobre elas. Agora estava ali, diante da maior de todas, pronta para tomar seus poderes.



20/10/2016


A nova contratada


Sentiu um arrepio frio na base do pescoço, como se tivesse alguém colado em seus calcanhares. Verificou a rua escura, mas estava tão vazia quanto a despensa em fim de mês. No dia seguinte, sem querer atropelou seu vizinho. E soube que a Morte a tinha contratado.



21/10/2016


Mau humor


Niami apontou a arma para a outra ladra.
— Me dá o disquete agora!
— Ai, que mau humor é esse? — Jara zombou. — Eu dou, calma! — O sorriso se alargou. — Mas antes tenho que fazer umas coisinhas.
E saltou pela janela, dedos firmes na corda, o disquete bem guardado no bolso. A Niami só restou xingar.



22/10/2016


A decoração do covil


— Essa decoração não parece a do covil de um vilão — disse Jara. — Devia ter mais preto, umas caveiras…
Lani revirou os olhos.
— Sério que você vai ficar me enrolando? Essa coisa de dominar o mundo é difícil, sabe, então eu não tenho o dia todo.
Jara levantou a arma.
— Bom, não custava tentar.



23/10/2016


A deusa (spin-off de Interligado)


— E então?
Ramaddeshia deu as costas a Sadrina e se debruçou na janela.
— Não deu tempo. Agora a gente tem uma deusa para derrotar.
— Vamos conseguir — Sadrina disse, baixinho.
O silêncio pesou tanto que até as hélices do ventilador pareciam ter dificuldades para cortá-lo.
— Não acredito em você.



24/10/2016


Os fantasmas da catedral (spin-off de A Deusa de Cristal)


O vitral da antiga catedral estendia-se metros acima de sua cabeça, lançando luzes coloridas no chão. Nunca deixou de temer imagens como aquelas. Os espíritos ali retratados existiam, ele sabia. Eles espreitavam na penumbra, e Aurus sentia seus olhos curiosos, às vezes famintos.



25/10/2016


Modo vilão exibido


— Pelo telhado não dá. Os guardas vão ouvir — disse Nean.
— Você tem um ponto. — Niva pegou a arma. — Modo vilões exibidos, então.
Embrenharam-se na festa. Quando saíram, a música ainda tocava, mas ninguém dançava. Niva levava o cristal-combustível.
— 437 pessoas. Acho que temos um recorde.

Curriculum


— Controle mental: 398 pontos. Tiro ao alvo: 347… — Ele abaixou o papel. — É um currículo e tanto, Niva! Onde aprendeu tudo isso?
— Minha mãe. Ela foi sequestrada quando jovem, e sabe como é o trauma, né?
O homem assentiu. Mal sabia ele que estava contratando a maior vilã de todos os tempos.

Do que uma heroína precisa?


30 mortos em assalto a banco com explosivos, eram os dizeres da manchete. Shya sabia que tinha que colocar um ponto final naquilo. Chegou a fantasiar com a sensação do cabo da arma na mão. Mas sabia que no fim a deixaria escapar. Afinal, não poderia ser uma heroína se não existissem os vilões.



26/10/2016


Do que uma vilã precisa?


Liara a tinha sob a mira do revólver, mas fez com que a arma falhasse e Shya escapou, provavelmente acreditando na sorte ou, mais provável, que era uma heroína excepcional. A verdade é que não tinha graça aterrorizar o país se não existisse uma heroína para agitar as coisas.



27/10/2016


Desfile aprimorado (spin-off de A Cidade do Futuro)


Os aprimorados seguiam para o pátio, exibindo os braços metálicos e joias mágicas como se estivessem em um desfile. Na varanda, Jayelena mostrava seu sorriso brilhante para a multidão.
Sem escolha, Ramanid anunciou o futuro, sem deixar transparecer que o futuro que ela planejava era bem diferente.



28/10/2016


A mulher de lavanda (spin-off de A Deusa de Cristal)


Todos os dias ela se debruçava na varanda, com o olhar perdido, seu vestido cor de lavanda tremulando com o vento. Aurus era fascinado por ela. Mas, sempre que perguntava por que morava em uma casa arruinada, ou por que usava o mesmo vestido todos os dias, afirmavam não haver mulher nenhuma.



29/10/2016


Vilões no Facebook


Aliana passava as fotos uma a uma, os lábios franzidos. Todas a mostravam posando com sua metralhadora, mas não parecia uma verdadeira vilã em nenhuma.
— Para quê essas fotos? — Nyo quis saber.
— Como assim “para quê”? Vou postar no Face, né! Quero visibilidade para o nosso show de amanhã.

Quem ela deveria ter sido


Lire olhou no espelho, mas a face que surgiu do outro lado não era a sua. Era de quem ela devia ser de acordo com sua mãe, com seu chefe, com todo mundo. Odiava a perspectiva de ser aquela pessoa, mas ela a perseguia, surgindo no vidro da janela ou na superfície de seu café quando menos se esperava.


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