7 de novembro de 2016

Resenha | Revista Trasgo - Edição 3

Título: Revista Trasgo – Edição 3
Autores: Rodrigo van Kampen (organizador), Gael Rodrigues, Roberto de Sousa Causo, Caroline Policarpo Veloso, Claudio Parreira, Tiago Cordeiro, Liége Báccaro Toledo, Kelly Santos (ilustradora).
Ano de publicação: 2014
Número de páginas: 100
Sinopse: A revista Trasgo é uma revista de ficção científica e fantasia brasileira, editada trimestralmente. Nesta edição, Gael Rodrigues abre com “O Empacotador de Memórias” seguido por “Rosas Brancas” de Roberto de Sousa Causo, primeiro conto da série Shiroma, Matadora Ciborgue. Em seguida saímos da FC rumo ao onírico em “Feita de um Sonho” de Caroline Policarpo Veloso. “Invasão” de Claudio Parreira, traz um punhado de insanidade à sua leitura, seguido por “Viral” no qual Tiago Cordeiro aborda o universo zumbi com criptografia. Fechando com chave de ouro, uma noveleta de Liége Báccaro Toledo: “O Vento do Oeste” o transportará para Sawad, uma terra desértica de deuses, homens e lendas.

Hoje trago as resenhas dos seis contos de fantasia e ficção científica que compõem a terceira edição da Revista Trasgo. Nesta edição, acabei não gostando muito de dois dos contos; em compensação, gostei de todos os outros, sendo que dois deles entraram para os favoritos. Confira abaixo as resenhas:

O Empacotador de Memórias - Gael Rodrigues


É difícil falar da premissa desse conto sem entregar spoilers, então tudo o que vou dizer sobre isso é que Tom tem uma obsessão: ser capaz de transferir memórias para um recipiente e, com isso, ajudar as pessoas. É um conto muito bem escrito, que está mais para realismo fantástico que para fantasia, pois não existe no texto a necessidade de se explicar como, por exemplo, as memórias podem ser transferidas para um recipiente.

O conto passa por várias fases da vida de Tom, desde a infância até a vida adulta, abordando a obsessão dele em empacotar memórias e diversos outros temas — sobre o quanto as pessoas se apegam às memórias e o quanto temem perdê-las —, que ficam nas entrelinhas. Não é uma história cheia de cenas de ação e reviravoltas: é uma história intimista, que trabalha o psicológico e o emocional dos personagens (um tipo de história que eu gosto bastante). A narrativa, apesar de tratar desses temas, é bem leve e imersiva.

Um detalhe do qual eu gostei muito foi a forma como determinados sentimentos, como a solidão, foram personificados. Foi algo que deu um toque a mais a um conto que já foge bastante de clichês. O conto termina deixando vários detalhes para a imaginação do leitor — não por incompetência, mas sim na medida certa para fazer a mente divagar. É o tipo de conto para colocar na lista de releituras.




Rosas Brancas - Roberto de Sousa Causo


Para resgatar sua filha, Mara faria qualquer coisa. Inclusive enganar o ex-amante para roubar os cristais onde ele guardava um projeto visionário e entregá-los àqueles que têm a menina como refém.

Rosas Brancas é um conto bem curto, por isso é até difícil falar de sua premissa sem entregar spoilers. A narrativa, em terceira pessoa, me manteve imersa durante a primeira metade do conto, sendo eficiente em me colocar na história e ao mesmo tempo sem exagerar nos detalhes. A segunda parte do conto, no entanto, me desagradou. O clímax foi um pouco morno e um dos diálogos soou um pouco forçado, com personagens explicando uns para os outros coisas que eles provavelmente já sabiam só para que a informação fosse dada ao leitor. Isso acabou estragando a reviravolta, ao meu ver, que não teve tanto impacto quanto poderia, já que acabou sendo toda contada nesse diálogo.




Feita de um Sonho - Caroline Policarpo Veloso


Roberta perdeu a mãe há três meses e desde então luta para sustentar a si e sua irmã mais nova. Já estaria se adaptando à sua nova vida se não fosse o estranho sonho que se repete toda noite.

Feita de um sonho foi uma leitura rápida e bastante imersiva que me agradou bastante. A narrativa em primeira pessoa é boa, sem ficar se detendo em longas explicações sobre a vida de Roberta e sua irmã. As cenas dos sonhos foram bem descritas: a autora conseguiu passar muito bem a sensação experimentada pela protagonista, por exemplo. O final trouxe algo diferente do que eu esperava, mas gostei da resolução.




Invasão - Claudio Parreira


Invasão é um conto bem inusitado. O protagonista, que não teve seu nome apresentado, narra em primeira pessoa uma cena muitíssimo estranha que ocorreu em seu apartamento em um sábado à tarde.

A narrativa é eficiente e rapidamente me enredou nesse caso tão curioso. É, mais uma vez, aquele tipo de conto que não se presta a dar explicações, e que é bom porque não as dá. Teria sido ainda melhor se o autor tivesse explorado um pouco mais as sensações (a famosa regra dos cinco sentidos), o que teria me deixado ainda mais envolvida nessa história tão excêntrica, mas não foi nada que tenha chegado a tirar o brilho da história.




Viral - Tiago Cordeiro


Viral é um conto sobre zumbis, mas o autor conseguiu inovar bastante dentro do tema. A trama gira em torno de um idioma que os zumbis desenvolveram, cujos fonemas se alteram com o passar do tempo, o que foi bastante criativo.

A narrativa é em terceira pessoa e acompanha Gabriel, embora outros personagens sejam citados. É uma narrativa não linear, o que muitas vezes costuma me deixar ainda mais presa à história e curiosa por sua resolução — mas, infelizmente, não foi o que aconteceu aqui. Mas o problema não foi a não-linearidade. O que me incomodou foi que o autor não investiu muito em construir um clima de tensão e mostrar o quanto Gabriel estava amedrontado com a situação toda e como tudo poderia acabar perdido. Isso me deixou com a sensação de que a resolução foi fácil e os zumbis afinal não eram tão perigosos assim. Ou seja: o conto não teve todo o impacto que deveria, não alcançou todo o seu potencial. O problema influenciou também os personagens: não consegui me conectar a nenhum deles, nem temer por eles devido à situação envolvendo os zumbis e o perigo iminente. O que foi uma pena, porque a ideia geral do conto é bem criativa.




O Vento do Oeste - Liége Báccaro Toledo


Sendo o conto mais longo da revista, foi um dos que mais me agradou. Achei a introdução um tanto lenta demais e, além disso, a autora recorreu um pouco ao tell para explicar a vida do protagonista, Farid — embora essas explicações sejam necessárias.

Gostei especialmente do worldbuilding, que tem inspiração árabe. A autora mostrou o suficiente para que o mundo soasse crível e completo ao leitor, tendo o cuidado de dar explicações por trás da rejeição sofrida por Farid, que é um Ahmar — filho do demônio do vento, Bahaal'zar. Outra coisa que me saltou aos olhos foi que ela também teve bastante cuidado na escolha das palavras e dos nomes, fazendo com que todas elas pareçam pertencer a uma única identidade linguística, o que fez com que eu me sentisse ainda mais imersa na história.

É outro conto que foge da ação e das batalhas que vemos em muitas histórias de fantasia, e ganhou muitos pontos comigo por focar em uma jornada mais solitária, mais centrada no psicológico dos personagens que em embates físicos. É também uma história bonita, com uma pegada mais melancólica, que fala de escolhas e da luta de Farid por ser aceito e respeitado. A narrativa, em terceira pessoa, contribuiu bastante para dar esse tom ao conto, e depois das páginas introdutórias, se mostrou bastante imersiva e eficiente na hora de explorar os personagens (também muito bons, especialmente considerando que se trata de um conto) e o worldbuilding. Em resumo, um ótimo conto, que me deixou muitíssimo interessada em conhecer outros trabalhos da autora.




O Empacotador de Memórias e O Vento do Oeste foram, definitivamente, os dois contos que mais me agradaram — mas gostei mais do primeiro que do segundo. E, apesar de não ter gostado muito de dois dos contos, recomendo muito a revista; você pode baixar a terceira edição aqui, de graça!

Confira também as resenhas das edições 1, 2 e 9.


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