2 de maio de 2016

Resenha | A Lança do Deserto

Título: A Lança do Deserto (Ciclo das Trevas #2)
Autor: Peter V. Brett
Ano de publicação: 2015
Editora: Darkside
Número de páginas: 720
Sinopse: O sol está se pondo sobre a humanidade. A noite agora pertence aos demônios vorazes, que se alimentam de uma população cada vez menor, obrigada a se esconder atrás de símbolos esquecidos de poder. As lendas falam de um Salvador: um general que certa vez reuniu toda a humanidade e derrotou os demônios. Mas seria o retorno do Salvador apenas mais um mito? Ahmann Jadir é o líder das tribos reunidas do deserto. Sua lança e sua coroa ancestrais são os argumentos de que precisa para proclamar a si mesmo Shar’Dama Ka, o Salvador. Os habitantes do norte discordam. Para eles, o Salvador não é outro senão o Arlen Bales, Protegido.
Houve um tempo em que Shar’Dama Ka e o Protegido eram amigos. Agora são adversários violentos e cruéis. Mesmo que antigas lealdades sejam colocadas à prova e novas alianças sejam criadas, a humanidade ainda não tem consciência do aparecimento de uma nova espécie de demônio, mais inteligente e mortal que todos os que existiam até então. Ainda existe luz na escuridão. Use-a para enfrentar os demônios do Ciclo das Trevas.

Esta resenha pode conter spoilers de O Protegido, volume anterior da série.

A Lança do Deserto é dividido em 4 partes, sendo que a primeira delas se dedica inteiramente a contar a história de Jardir, personagem que no volume anterior teve sua importância, mas não ponto de vista. Assim, ao mesmo tempo em que o vemos se autoproclamar o Salvador e reunir seu exército para conquistar o norte no que se constitui no tempo presente da história, conhecemos todo o seu passado, desde que foi recrutado para ser treinado como nie’sharum, quando era apenas um garoto, até sua ascensão como a pessoa de maior poder em Krasia. Nas demais partes, a história de Leesha, Rojer e d’O Protegido é retomada, e também temos a introdução de mais uma personagem, Renna, que no volume anterior foi mencionada rapidamente. Esses personagens se dividem entre a luta contra os demônios e a busca por novas armas e Proteções e a ameaça de Krasia. E temos, ainda, alguns capítulos sob o ponto de vista de demônios — o que foi muitíssimo interessante.

Desse modo, A Lança do Deserto traz uma trama que é ainda melhor que a do volume anterior e que me manteve entretida durante todo o feriado do dia 21 de abril (isso mesmo: li um livro de 700 páginas em 4 dias, praticamente sem fazer qualquer outra coisa que não ler). O livro nos faz conhecer em detalhes a cultura de Krasia, que é interessante e ao mesmo tempo bastante restrita, mesmo para aqueles que ocupam as melhores posições, e muito voltada para a guerra, tanto entre as diferentes tribos quanto contra os demônios. Tão interessante quanto é acompanhar a continuação da jornada de Leesha, Rojer e Arlen contra os demônios, para que depois os dois núcleos se unam, tornando a história ainda mais interessante. O livro foi para um caminho totalmente diferente do que eu esperava, considerando o final do volume anterior, mas isso de jeito nenhum foi ruim: foi uma surpresa bastante positiva. Mesmo porque reviravoltas são o que não faltam aqui.

A narrativa se manteve no nível do volume anterior: com os detalhes na medida certa, ambientando o leitor na história de forma a fazê-lo esquecer que estava lendo um livro.

Quanto aos personagens, foi interessante conhecer alguns dos acontecimentos sob o ponto de vista de Jardir, e suas relações com alguns dos outros personagens, como Abban e Inevera e até mesmo com Arlen foram bem construídas (ainda que eu tenha achado a relação de extrema confiança entre ele e Hasik um tanto forçada, dado o que aconteceu entre os dois). Arlen, por sua vez, se vê dividido entre seu lado humano e seu lado demoníaco (que ameaça se tornar dominante a qualquer momento) enquanto esbarra nas pessoas de seu passado e tenta, a todo custo, convencer as população em geral de que não é o Salvador. Leesha, por sua vez, mergulhou fundo no estudo da magia das Proteções e tem um papel cada vez maior na liderança da Clareira do Lenhador (ou do Salvador), onde as pessoas estão cada vez mais empenhadas em matar demônios. Como sempre, é interessante acompanhar como ela lida com tudo isso e ainda com a pressão (imposta principalmente por sua mãe) de construir uma família. Rojer também foi bem trabalhado e se mostra cada vez mais imerso na batalha contra os demônios. O mesmo se deu com Renna, que foi, na minha opinião, uma das personagens que teve o desenvolvimento mais interessante e menos forçado em relação a algumas coisas que aconteceram com ela (não posso entrar em maiores detalhes sem dar spoilers).

Mas uma coisa que me incomodou em O Protegido e que continuou me incomodando em A Lança do Deserto é a maneira como o autor trata o romance. Tudo acontece muito rápido, sem desenvolvimento (o famoso amor à primeira vista). Não houve, entre esses personagens, tempo ou interação suficiente para que eles se apaixonassem e começassem a se amar, ainda mais com tanta intensidade. Foram relacionamentos forçados, que estavam lá para fazer a trama andar.

Outra ressalva é quanto ao que aconteceu com Leesha no final de O Protegido (se ainda não leu, há spoilers a seguir). Ela foi estuprada, depois se apaixonou por Arlen, então isso foi esquecido em detrimento da batalha contra os demônios na Clareira do Lenhador. Perdoei, porque o livro estava no final, uma preocupação mais premente se impôs (salvar a própria vida e dos amigos), e porque eu esperava que isso fosse melhor retratado em A Lança do Deserto. O assunto até foi retomado: foi explicado meio por cima que Leesha na verdade não estava apaixonada por Arlen, embora a cena tenha dado a entender que estava, e se tocou na questão do estupro, mas também rapidamente, sem chegar a desenvolver o trauma de forma satisfatória. O que foi até uma pena, pois Leesha é uma das minhas personagens favoritas na saga e, não fosse esse problema, seu desenvolvimento como personagem seria mais do que excelente. (Fim dos spoilers de O Protegido).

Mas, afora os problemas que comentei acima, o livro trouxe uma trama muito satisfatória, com bons personagens, um universo muito bem construído e um final que me deixou ansiosíssima pelo próximo volume. Quanto à revisão, notei alguns erros de digitação ao longo do livro, mas nada que prejudicasse o entendimento ou que fosse numa frequência muito alta.

***


Se você já leu A Lança do Deserto (ou não liga para SPOILERS) confira em detalhes minha opinião sobre alguns dos problemas que encontrei em relação aos casais que surgiram nesse livro:

  • Renna, como mencionei por cima alguns parágrafos atrás, foi a personagem que teve o melhor desenvolvimento, em relação aos abusos que sofreu. Ela tentou fugir da fazenda do pai várias vezes, e quando aparentemente foi bem sucedida, Harl a pegou tentando convencer Cobie Pescador a se casar com ela (e esse casal até que dava para entender, já que o principal objetivo de Renna era fugir dos abusos do pai). Harl matou Cobie, depois, em fúria, quase matou Renna, mas esta o matou primeiro. Ficou em estado catatônico, foi acusada dos dois assassinatos e condenada à morte, amarrada em uma estaca ao pôr-do-sol para ser devorada por demônios. Nem isso a tirou desse estado, mas Arlen chega ao Riacho de Tibbet bem nesse momento e, quando a liberta, ela finalmente volta a si. Não sei se é de fato um problema, mas soou um pouco piegas, sendo que nada mais surtiu efeito sobre o estado dela. Depois disso, Arlen decide ensinar o povo do Riacho a lutar contra demônios, e quando parte, Renna decide ir com ele. Na última página, Arlen se promete a ela. E esse foi o melhor casal do livro, pois eles passaram um tempo viajando juntos, interagiram bastante pois Renna estava aprendendo a matar demônios e depois o convenceu a retornar das Profundas quando ele perseguiu um demônio até lá. Esse desenvolvimento não foi de fato mostrado, mas foi deixado implícito que aconteceu enquanto eles viajavam.
  • Curioso com o fato de supostamente haver outro Salvador, Jardir decide viajar à Clareira do Salvador para ver por si mesmo. Chega com parte de seu exército à noite, quando os clareiros estão lutando contra os demônios e, como “todos são irmãos na noite”, conforme acreditam os krasianos, ajudam na batalha. Depois que todos os demônios são eliminados, e ainda sob trégua, Jardir e alguns dos krasianos são convidados para conversar. Então Jardir se apaixona por Leesha, e ela não tarda a corresponder, embora esteja hesitante em se casar com ele. Assim, de uma hora para outra. Sem que os dois tenham interagido por tempo suficiente para ao menos se tornarem amigos. Mesmo que sejam, a rigor, inimigos. Mesmo que Leesha tenha passado boa parte de sua vida recusando diversas pessoas por estas a terem decepcionado das mais variadas maneiras. Em resumo, foi bem forçado (e teria sido diferente se tivesse sido uma proposta puramente política, sem nenhum sentimento envolvido, pelo menos no começo).

FIM DOS SPOILERS DE A LANÇA DO DESERTO.

Avaliação:

Trama: 4
Narrativa: 5
Personagens: 4
Caracterização: 5
Coerência: 4
Criatividade: 5
Revisão: 4



Os livros de Ciclo das Trevas:
  1. O Protegido;
  2. A Lança do Deserto;
  3. A Guerra Diurna (ainda não publicado no Brasil).

Um comentário :

  1. Só não curti muito esses romances mesmo, achei mal desenvolvidos à primeira vista, veremos o que acontece no 3º livro. No mais, é uma série que pretendo seguir até o final. Boa resenha!

    http://desbravandolivros.blogspot.com.br/

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