30 de abril de 2016

Resenha | Revista Trasgo - Edição 9

Título: Revista Trasgo – Edição 9
Autores: Paola Siviero, Moacir de Souza Filho, Anderson D. C., Jana P. Bianchi, Michel Peres, Santiago Santos
Ano de publicação: 2016
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Durante a 9ª Maratona Literária do Me Livrando, que foi no finalzinho de março, li o primeiro conto da 9ª edição (até combinou: 9ª maratona, 9ª edição…) da Revista Trasgo, que passou a ser gratuita (mais detalhes abaixo e no site da revista). Durante todo o mês de abril, li o restante dos contos, e finalmente trago a resenha de todos eles para vocês!

Sobre o Ar e o Fogo (Paola Siviero)


A boa narrativa logo me enredou em uma trama muito interessante sobre uma longa guerra entre o povo do ar e o povo do fogo pela posse do Vale do Sol. É uma narrativa fluída, mas ainda assim detalhista o suficiente para construir imagens dentro de minha mente e me sugar para dentro desse universo. Aliás, embora poucos detalhes sejam trabalhados nesse conto, é possível perceber que é um mundo bem construído, e os poderes de ambos os povos foram bem bolados. E, apesar da excelente trama, que foge bastante do óbvio, o foco são os personagens: Alas, o general do povo do ar, e Firenz, o general do povo do fogo. A história é contada inteiramente sob o ponto de vista de Alas (em primeira e terceira pessoa), mas mesmo assim a autora conseguiu explorar muito bem o personagem Firenz. A única coisa que eu poderia considerar como ponto negativo é que algumas cenas (especialmente de ação) não causam tanto impacto quanto eu esperava delas. Mas, no geral, foi um conto do qual gostei muito.



Missão Verne (Moacir de Souza Filho)


Este conto traz um tema bastante recorrente na ficção científica: a exploração de novos planetas. Entretanto, não é mais do mesmo, pois inova tanto no formato quanto na trama. A narração é feita inteiramente por registros de gravações de discursos, relatórios e mensagens pessoais dos personagens sobre a Missão Verne. Esta consiste em uma missão de exploração a um planeta com potencial para abrigar a vida como conhecemos, e o alvo da missão é o planeta que foi apelidado de Verne. É um conto focado na trama (que trouxe um final bastante surpreendente) e por isso, mesmo apresentando alguns relatos de teor mais pessoal, não explora a fundo os personagens (já que vários são citados), mas aqui isso não faz falta, porque não é algo que o conto demanda. Além disso, há alguns pequenos detalhes técnicos que são citados (mas sem confundir o leitor e comprometer a fluidez narrativa) muitas vezes de forma bastante discreta, mas que fazem toda a diferença na ambientação e mostram o cuidado do autor em pesquisar e se inteirar na linguagem.



Uma Antiga Aldeia e seus Pequenos Deuses (Anderson D. C.)


Este conto apresentou um estilo de narrativa bem diferente e, embora seja perceptível que a técnica do autor é muito boa, não conseguiu me prender. Talvez por uma questão de gosto mesmo. É também um conto que não tem foco em um único personagem, mas em toda a população de uma aldeia e sua relação com o que supõem ser um deus. E, apesar de o estilo da narrativa não ter funcionado comigo, é uma relação bem interessante de acompanhar, que se constitui em uma trama que foge bastante do óbvio.



Analogia (Jana P. Bianchi)


Analogia é um conto que tem um clima bem urbano (ainda que seu foco não seja a cidade), que traga o leitor para dentro de suas páginas. Conta a relação de um homem com um barco de brinquedo mágico, desde sua infância, quando o ganhou de um homem misterioso, até a idade adulta, quando a mágica aparentemente não funciona mais. O conto não tem uma trama mirabolante e não se propõe a explicar a magia que dá vida ao micro ecossistema em que o pequeno barco está inserido. Ao contrário dos contos anteriores, esse foca no personagem e em sua relação com o brinquedo, mas ainda assim arrebata e traz um final que talvez não seja tão inesperado, mas que é muito satisfatório. Mas acredito que a força dessa história está nos pequenos detalhes que a narrativa traz, às vezes aparentemente irrelevantes, às vezes quase imperceptíveis, mas fundamentais para trazer a sensação de familiaridade, de que aquilo poderia estar acontecendo na sua cidade, quem sabe com seu vizinho.



Sardas e Manchas de Sangue (Michel Peres)


Este conto mistura ficção científica com investigação policial, construindo um universo futurista bastante interessante. É ambientado aqui no Brasil e, como no conto anterior, muito competente em passar o clima urbano. A trama gira em torno do assassinato de um funcionário em uma obra por um gimo — criaturas quiméricas criadas artificialmente a partir de genomas de diversos animais, inclusive de seres humanos. Mas, narrado em primeira pessoa, também explora um pouco da vida pessoal de Juarez e de seu divórcio em curso. Além disso, a narrativa, por ser sob o ponto de vista de um personagem que vive nesse mundo e o conhece muito bem, não dá explicações diretas sobre as peculiaridades que são apresentadas, mas é competente em deixar as pistas para que o leitor depreenda o significado de cada termo. O final não traz nada de extremamente surpreendente quanto à investigação (aliás, achei que foi um conto curto demais para desenvolvê-la de modo que fosse mais empolgante), mas a amarra de forma interessante aos detalhes da vida pessoal de Juarez. O final é deixado em aberto, e uma leitura atenta deve ser feita para pegar as pistas (ainda que eu não tenha certeza de que a minha conclusão é correta).



Emet (Santiago Santos)


De todos, foi o que menos gostei e, mais uma vez, acredito que isso se deu por eu não ter gostado do estilo narrativo, ou talvez por não ter conseguido me conectar ao protagonista (um golem), já que a narrativa é em primeira pessoa. Bo chega desmemoriado a um bar, sem saber como chegou ali e por que, e parte com Josias, o elemental da terra que será o seu guia em uma viagem que o próprio Bo solicitou, embora não se lembre disso. Conforme prosseguem, passam por lugares bastante estranhos, utilizando meios de transporte muito inusitados no que parece ser uma viagem de autoconhecimento. O final traz uma surpresa bastante inesperada, mas, como já mencionado, o restante do conto não me empolgou tanto — mais uma vez, acredito, por uma questão de gosto pessoal.



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