9 de dezembro de 2014

[Resenha] O Nome do Vento

Título: A Crônica do Matador de Rei – Primeiro Dia: O Nome do Vento
Autor: Patrick Rotfuss
Ano de publicação: 2009
Editora: Arqueiro
Número de páginas: 656
Sinopse: Ninguém sabe ao certo quem é o herói ou o vilão desse fascinante universo criado por Patrick Rothfuss. Na realidade, essas duas figuras se concentram em Kote, um homem enigmático que se esconde sob a identidade de proprietário da hospedaria Marco do Percurso. Da infância numa trupe de artistas itinerantes, passando pelos anos vividos numa cidade hostil e pelo esforço para ingressar na escola de magia, O nome do vento acompanha a trajetória de Kote e as duas forças que movem sua vida: o desejo de aprender o mistério por trás da arte de nomear as coisas e a necessidade de reunir informações sobre o Chandriano — os lendários demônios que assassinaram sua família no passado. Quando esses seres do mal reaparecem na cidade, um cronista suspeita de que o misterioso Kote seja o personagem principal de diversas histórias que rondam a região e decide aproximar-se dele para descobrir a verdade. Pouco a pouco, a história de Kote vai sendo revelada, assim como sua multifacetada personalidade — notório mago, esmerado ladrão, amante viril, herói salvador, músico magistral, assassino infame. Nesta provocante narrativa, o leitor é transportado para um mundo fantástico, repleto de mitos e seres fabulosos, heróis e vilões, ladrões e trovadores, amor e ódio, paixão e vingança.

Na pousada Marco do Percurso há um homem muito enigmático, que reluta em falar sobre seu passado. Mas acontecimentos excepcionais levam o Cronista à Marco do Percurso e, depois de um bocado de persuasão, ele consegue convencer Kote a admitir sua verdadeira identidade e permitir que sua impressionante história seja registrada.

Kote impõe suas próprias condições: precisará de três dias para contar toda a sua história e o Cronista não poderá alterá-la. E então tem início a história de Kvothe, que é visto por alguns como um herói, para outros como um assassino e muitas vezes até mesmo como um demônio. Em sua vida ele já teve diversos nomes, alguns nada gentis, mas todos merecidos.

Já resgatei princesas de reis adormecidos em sepulcros. Incendiei a cidade de Trebon. Passei a noite com Feluriana e saí com minha sanidade e minha vida. Fui expulso da Universidade com menos idade do que a maioria das pessoas consegue ingressar nela. Caminhei à luz do luar por trilhas de que outros temem falar durante o dia. Conversei com deuses, amei mulheres e escrevi canções que fazem os menestréis chorar.

Vocês devem ter ouvido falar de mim.
O Nome do Vento, página 58.

No primeiro volume é retratado o primeiro dos três dias, durante o qual Kvothe fala sobre sua infância com sua trupe de artistas, os Edena Ruh, os dias sombrios de mendicância em Tarbean e sua adolescência na tão sonhada Universidade.

E, enquanto acompanhamos a jornada de Kvothe, somos apresentados ao universo criado pelo autor, percebendo que foi bem estruturado e que mesmo aqueles detalhes que não estão presentes na história foram pensados. Não vemos apenas cidades e vestimentas, mas também História, religião e folclore. A música e o folclore, inclusive, são tratados com um enfoque muito interessante, não como algo de suma importância, mas presente nas vidas das pessoas, como ocorre em nossa vida real.

Também destaco o sistema de magia criado por Patrick Rothfuss, a simpatia. De forma resumida, é um sistema baseado em conexões entre dois itens que guardem semelhança entre si e na transferência de energia através dessa conexão, permitindo que diversas tarefas que seriam árduas se realizadas manualmente se executem de maneira prática e eficiente. Em contraposição a esse sistema prático, tratado de maneira acadêmica, temos a magia dos contos de fada, que se baseia na premissa de que os nomes têm poder, o que é outro ponto muito interessante da trama e consiste em um dos maiores sonhos de Kvothe: aprender o nome do vento.

A trama está focada na vida de Kvothe, por isso, enquanto vemos sua busca por respostas sobre o Chandriano, também acompanhamos suas demais aventuras, que, apesar de não terem relação com o Chandriano, foram responsáveis por gerar sua fama e torná-lo um mito de seu próprio tempo.

A narrativa se alterna entre terceira pessoa (nos momentos em que são narrados os acontecimentos na pousada Marco do Percurso) e primeira pessoa (quando Kvothe narra sua história). Foi uma decisão acertada, pois quando Kvothe se interrompe para cuidar de seus afazeres, realmente nos sentimos como se estivéssemos emergindo de uma longa conversa. A narrativa nos faz imergir na história de uma tal maneira que muitas vezes nos esquecemos da Marco do Percurso e até mesmo de nossas próprias vidas.

A escrita é deliciosa, narrando tudo sem pressa e dando aos leitores bastantes detalhes sobre o protagonista, aqueles que o cercam e o mundo onde vive. Porém, apesar das cenas bem trabalhadas, o ritmo não é enfadonho. O mistério prende o leitor às páginas e a narrativa rica o faz se sentir como se estivesse vivendo a história.

Temos foco em Kvothe, em suas jornadas e em seus interesses, mas Rothfuss também nos apresenta personagens secundários interessantíssimos, como alguns professores (um deles muito peculiar) da Universidade, Denna, por quem Kvothe apresenta interesse romântico, e a misteriosa Auri, uma ex-estudante que agora habita os subterrâneos da Universidade. Apesar de estes não serem tão bem explorados, devido à narrativa em primeira pessoa, nota-se que foram importantes na vida de Kvothe.

Na narrativa do presente, em terceira pessoa, temos também Bast, aprendiz de Kvothe e bastante misterioso. Apesar de no início da história não parecer passar de um aprendiz ansioso por subir a história de seu mestre, em seu final mostra que está envolvido na história e os acontecimentos do presente são como uma trama em paralelo, consequências do que Kvothe fez no passado.

Uma vez que se trata de uma única história, o livro não traz um final propriamente dito, com arco próprio. Poderia ser considerado como uma pausa, uma indicação de que o dia chegou ao fim e que o restante da história ficará para depois. Tampouco traz muitas respostas, deixando diversas perguntas não respondidas (tanto do momento presente quanto do passado) para os volumes seguintes. Isto, porém, não é um ponto negativo; pelo contrário, pareceu muito adequado à proposta do livro.


Outros livros de Patrick Rotfuss:
  • A Crônica do Matador de Rei – Segundo Dia: O Temor do Sábio

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