12 de novembro de 2014

Escrevendo Fantasia | Escolha do Tema

Mês passado dei início a uma série de posts onde pretendo discutir o processo de escrita de um livro de fantasia, gênero que escrevo e sobre o qual mais leio. No primeiro post fiz uma introdução geral sobre cada tópico que iria discutir, sendo que os próximos posts discutiriam cada tópico separadamente, em mais detalhes.


Hoje irei falar sobre a escolha do tema.

Quando lemos um livro, seja ele de fantasia ou não, encontramos uma história que pode ou não nos agradar. Mas em muitos casos percebemos, também, que o autor está tentando nos passar uma mensagem, seja por meio do desenvolvimento dos personagens, seja por meio de outros acontecimentos na história. Este é o tema da história.

Em Harry Potter, por exemplo, é-nos explicado que alguns bruxos, especialmente os de sangue puro, têm o costume de chamar aqueles que têm ambos os pais trouxas (que não são bruxos) de sangue-ruins. Harry Potter é uma história sobre um garoto que teve seus pais mortos por um bruxo das trevas e que, após descobrir o mundo ao qual pertence, deve lutar para proteger a comunidade bruxa do mesmo. Mas nesse exemplo podemos ver que J. K. Rowling aproveitou para falar sobre preconceito. Obviamente, ela também falou sobre diversos outros temas ao longo de todos os sete volumes, como amor, amizade, o medo da morte e a busca da invulnerabilidade.

Uma leitura que eu recomendo muito e em que é fácil perceber a discussão de um tema nas entrelinhas da história é Os Contos de Beedle, o Bardo, sobre o qual já falei aqui no blog.

Durante minhas leituras, vejo muitos escritores (especialmente os iniciantes) que não conseguem desenvolver muito bem as discussões que propôs e muitas vezes perdem oportunidades para discutir temas interessantes, assim, falarei um pouco sobre a maneira como, acredito, essa tarefa poderá se tornar mais fácil.

Para isso, tomarei o mesmo exemplo que usei no primeiro post: o mago que deseja adquirir o conhecimento para utilizar um feitiço antigo e poderoso, que devido à sua complexidade já caiu em desuso.

Imagine que, dentre todas aquelas ideias que você tem anotadas no seu caderno, esperando para serem desenvolvidas, você escolheu esta. Deve estar imaginando onde se passará a história, quem são os vilões, o que faz o feitiço.

Mas também deve pensar em quais serão as consequências de seu uso. Faça perguntas a si mesmo (imagine o que um possível leitor gostaria de ver respondido). Por exemplo: seu protagonista será capaz de lidar com essas consequências?

Mas diversas outras perguntas podem ser discutidas em cima disso. Atente aos exemplos:
  1. Por que o personagem sente necessidade de conhecer esse feitiço?
  2. O quanto está disposto a sacrificar para alcançar seu objetivo?
  3. Quem está disposto a enfrentar?
  4. O que ele aprenderá ao longo da jornada?
  5. Como ele deseja utilizar esse feitiço?

Todas essas perguntas têm relação com seu personagem, e podem até mesmo ajudá-lo a desenvolvê-lo, a depender de aonde quer chegar com a história. Certamente essa relação entre o personagem e o tema será muito importante, uma vez que é o personagem que move a história.

Assim, tendo exaurido todas as questões possíveis, comece a pensar em quais delas quer responder e como as responderá. Vamos pensar sobre a pergunta 2, sobre o quanto o personagem está disposto a sacrificar para conseguir seu objetivo.

A depender de quem é seu personagem, pode ser que ele não se importe em causar morte e destruição para isso. Se for um feitiço benéfico, sua história será sobre até quando vale a pena sacrificar algumas vidas para salvar outras milhares (em outras palavras, se os fins justificam os meios).

Se o seu personagem se preocupa com as consequências daquilo que ele faz para outras pessoas, trará uma nova pergunta para a história: o que é mais forte, sua motivação ou sua virtude? Se a motivação for mais forte, pode ser que ao longo da história ele se deixe corromper. Assim terá um livro sobre como a ganância e o desejo de poder pode aos poucos levar uma pessoa a se desvirtuar e a cometer atrocidades.

Ele se arrependerá? Tentará ao final consertar tudo o que fez de ruim? Ou estará preocupado demais com seu objetivo para pensar no assunto? Essas perguntas também poderão surgir ao longo da história, e cabe ao autor decidir como respondê-las.

Porém, um ponto importante para ter em mente é que uma coisa é saber de tudo isso, outra coisa é conseguir desenvolver todas essas ideias de maneira coerente em sua história, especialmente nos casos dos personagens de caráter ambíguo. Eu, pelo menos, tenho muita dificuldade em caracterizar personagens assim sem que eles pareçam contraditórios ou melodramáticos.

Ainda assim, creio que valha a pena revisar seu livro mais de uma vez até sentir que sua história é capaz de passar para o leitor aquilo que você tinha em mente. Todas essas discussões, relacionadas a um universo interessante, bons diálogos e boas cenas de ação certamente tornarão seu livro muito mais interessante.

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