8 de outubro de 2014

Como escrever um livro de fantasia?

Como a fantasia é o meu gênero de preferência para escrever (e é também o tipo de literatura que mais consumo) resolvi fazer uma série de posts sobre o assunto, destacando diversos aspectos que observei ao longo de minhas leituras ou surgiram em discussões com outros leitores do gênero.

Algumas dicas são minhas, baseadas em minhas leituras ou em experiências com a escrita de meus próprios livros. Outras encontrei em sites sobre escrita ou de escritores e as julguei pertinentes para o meu processo de escrita.


Minha ideia inicial era fazer uma lista com alguns tópicos, reunindo algumas dicas relativas ao processo de escrita, mas enquanto as anotava percebi que diversos assuntos mereciam um pouco de aprofundamento, então optei por uma série de posts.

Este primeiro post tratará de temas mais gerais, como uma espécie de introdução aos tópicos que serão discutidos. A ideia aqui, diferentemente de outros posts da seção sobre escrita, não é somente discutir meus próprios métodos, mas também propor questionamentos a outros escritores.

É importante salientar que não são regras, que suas histórias não deverão obrigatoriamente seguir os tópicos levantados à risca. São dicas, e quem estiver lendo isso pode pegar aquelas que lhes servirem e adaptarem-nas aos seus próprios objetivos com suas histórias ou aos seus processos de escrita.

Assim, vamos aos principais tópicos em que eu acredito você deveria pensar ao dar início à escrita de um livro de fantasia.

O que é fantasia?


Uma história é considerada do gênero fantasia quando apresenta elementos imaginários que não podem se tornar realidade, como magia e dragões. O trecho destacado é importante, pois o que difere a fantasia da ficção científica é justamente isso: a fantasia é sobre aquilo que nunca se tornará uma realidade, a ficção científica é sobre aquilo que tem possibilidade de se tornar real.



Escolha um assunto


Você já sabe dentro de qual gênero quer escrever seu romance ou conto, e provavelmente já tem uma ideia de como quer que a história seja. Mas o que você quer passar para o leitor? O que estará sendo discutido nas entrelinhas de seu enredo?

Sua história pode ser sobre um jovem mago que deseja adquirir o conhecimento de como utilizar um feitiço muito poderoso, o qual pouquíssimas pessoas foram capazes de utilizar e que já está praticamente esquecido.

Essa é a premissa básica, aquilo que trará o ar de aventura e mistério para a sua história (mas você também poderá optar por um ar mais sombrio, a depender de seus objetivos). Porém, independentemente da sua opção por um ar mais leve ou mais pesado, seria interessante discutir nas entrelinhas de sua história uma ideia, algo que queira passar para o leitor. Por exemplo, a busca pelo conhecimento e de que maneiras distintas o mesmo poderá ser utilizado.

Verossimilhança


A fantasia nos dá a liberdade de criarmos aquilo que quisermos: novas criaturas, novos tipos de poderes, novos mundos, até universos inteiros (ou mais de um, a depender do autor). Porém, o leitor não irá gostar de ler uma história em que tudo isso não tenha um sentido aparente e que dê a impressão de que um novo absurdo é jogado a cada página.

Um elemento fantástico não precisa necessariamente possuir uma lógica (será que o universo tem lógica ou nós é que tentamos dar sentido a tudo o que vemos?), mas precisa parecer plausível ao leitor. Este precisa acreditar que dentro do universo que você criou, com as normas por você determinadas, exista a possibilidade de um determinado fenômeno acontecer. Precisa existir uma regra por trás dele, ainda que dentro de seu universo ela seja desconhecida por aqueles que o povoam.

Importante: uma vez criada a regra, você não poderá quebrá-la apenas para ajudar seu personagem a sair de uma enrascada.

Cenário


Onde sua história irá se passar? Em nosso próprio mundo? Em um mundo de sua criação? Ambas as opções trazem suas dificuldades. Pense sobre como você irá inserir elementos fantásticos em um cenário real, como São Paulo, ou em como criará um mundo completamente novo de forma que ele pareça consistente e verossímil.

É importante também definir em que época sua história irá se passar e como esta o ajudará a discutir os temas de sua escolha. Se você escolher a Idade Média, por exemplo, poderá discutir como magia e religião se inter-relacionam e como os magos poderão evitar ser queimados (provavelmente terão de manter segredo sobre sua condição). Se escolher o mundo moderno, porém, poderá discutir como a magia e a tecnologia podem se ajudar mutuamente, ou talvez criar uma sociedade futurista em que a magia e a tecnologia sejam complementares e nos permitam criar veículos que não agridam o meio ambiente ou um modo de despoluir os rios.



Personagens


Os personagens fazem a história e a história faz os personagens.

É importante definir, antes de dar início à sua história, quem serão os protagonistas e o vilões. De modo semelhante ao que foi discutido no tópico sobre o assunto, levante questionamentos sobre seus personagens. O que quer o protagonista? O que quer o vilão? De que modo um poderá atrapalhar o outro? Quais serão as consequências de suas ações para si ou para a sociedade em que vivem? Como se encaixam dentro da trama que você idealizou?

Este tópico rende tanta discussão que provavelmente precisarei de um post somente para falar sobre os personagens.

Elementos fantásticos


Além de tudo você deverá inserir em sua trama os elementos que a tornarão uma história de fantasia. Podem ser criaturas mitológicas, como vampiros ou elfos (ou criaturas de sua própria criação), ou ainda humanos com poderes especiais (como magos ou pessoas com poderes paranormais). Tudo depende de que tipo de história você quer e qual assunto pretende discutir.

Uma vez determinadas as criaturas (ou os tipos de poderes) que usará em sua história, sugiro que faça fichas para cada espécime ou personagem, descrevendo sua fisionomia, cultura, poderes e o que mais julgar pertinente. Certamente o ajudará a não se perder dentro de seu próprio universo.



Tenha uma cronologia sólida


É importante que você crie uma linha do tempo para a sua história e tenha uma noção do que aconteceu antes e o que aconteceu depois. E, ainda que não vá contar sua história de forma linear, deve deixar claro o que aconteceu no passado, no presente ou no futuro (tendo como referência o tempo presente de sua história, seja este a Idade Média ou o século XXII), ou seu leitor irá se confundir.



Escolha a pessoa verbal correta


Vai narrar sua história em primeira ou terceira pessoa? Ambas trazem suas vantagens e desvantagens, mas possuem propósitos distintos. Se você for acompanhar a trajetória de apenas um personagem, pode ser interessante usar a primeira pessoa. Mas se precisar mostrar cenas que aconteceram em locais ou com personagens distintos, opte pela terceira pessoa. Um narrador onisciente permitirá que você alterne entre os diversos personagens e ainda tenha acesso aos seus pensamentos, de modo que possa elaborar seu psicológico de modo satisfatório. E lembre-se: se optar pela primeira pessoa, terá acesso apenas aos pensamentos do personagem-narrador (a menos que este seja um telepata).

Sistemas de magia


Quase sempre histórias de fantasia são sobre personagens que são capazes de realizar magia ou tenham algum tipo de poder, mesmo que estes personagens não sejam um dos protagonistas. Dependendo dos objetivos do autor com sua história, é importante que ele trace regras (mais ou menos específicas) para o funcionamento da magia ou do poder, de modo que o leitor não se perca e que o escritor possa resolver os conflitos de sua história com a magia (ou sem ela).

Neste caso, é importante salientar que sua história não será muito convincente se a cada problema que aparecer seus personagens tiverem um feitiço que resolva tudo rápida e facilmente. Para que o enredo fique mais instigante, crie regras ou limitações, ou faça com que seu personagem não seja capaz de acessar seus poderes justo num momento de perigo.



Criatividade


Procure extrapolar. Se sua história é sobre elfos, tente imaginá-los em uma situação diferente daquela em que costumamos ver em outras histórias de fantasia. Se outras histórias se passam em um mundo semelhante ao medieval, tente criar um que imite nossa época atual e pense em como isso iria mudar a conduta de seus personagens e toda a discussão por trás dela. Quebre regras e estereótipos.

Conclusão


Neste post tracei um panorama geral, de forma a passar uma ideia do todo. Nos demais posts dessa série falarei em maiores detalhes sobre cada um desses tópicos, aprofundando-me em cada um dos detalhes e pesando prós e contras.

Não tenho previsão de quantos posts precisarei para abordar tudo que tenho em mente, mas pretendo discutir assuntos como personagens, ambientação, worldbuilding, sistemas de magia, criaturas fantásticas, etc. Espero que apreciem!

Fontes

Eu na realidade me inspirei mais em mim mesma e em minhas experiências literárias para escrever esse post, mas me inspirei um pouco em escritos alheios, com os quais não necessariamente concordo. Talvez também sejam úteis para vocês, então recomendo a leitura. E, caso também não concordem com tudo, questionem: o que eu faria de diferente? Como usaria isso para tornar minhas histórias melhores?

6 comentários :

  1. Obrigada, esse post ajudou muito

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    Respostas
    1. Oi, Julia! Que bom que gostou! Se quiser saber mais, pode ler os demais posts da série ou então assinar a newsletter, que é mensal e sempre traz um texto sobre escrita, especialmente fantasia.

      Muito obrigada pela visita!

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  2. E a senhora tem como fazer de aventura também

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    Respostas
    1. Vou pesquisar a respeito e ver se faço um sobre histórias de aventura também! Obrigada pela ideia!

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